A nossa família sempre almoçava junta aos domingos. Durante a semana era quase impossivel, meu pai tinha negócio próprio e fechava apenas aos domingos por um curto espaço de tempo. Então era ai que meu pai colocava os papos em dia, muitas vezes meu pai falava das menina que iam lá tomar injeção pra abortar. Ou da outra que chegava desesperada pra fazer um teste de gravidez. Ele chamava-as todas putas. Eu saia na defesa, que elas não eram putas e tal. Mas, meu pai, CATOLICO APÓSTOLICO ROMANO, aprendeu que mulher que DÁ, antes do casamento. É PUTA. E dos casos, que as meninas andavam com o "shortinho entrando na regada da bunda" - segundo ele, tava pedindo pra um homem passar a mão. Não vou dizer que meus pais, foram ou são responsáveis pelo que aconteceu. Mas, muito do medo que tive de contar...isso sim tem uma grande ligação.
Quando acontece mais uma vez
Quando eu tinha 16 anos, meu primo (o mesmo que forçou a situação quando eu tinha 13 anos), foi passar férias na minha casa, com a mãe e a irmã mais nova. Eu fiquei tão apavorada que fui logo dizendo pra minha mãe que minha prima podia dormir na minha cama, e eu na casa da minha amiga e vizinha. Uma noite, era já tarde, ele veio até a casa dela e tentou me beijar a força...nós estavamos deitadas conversando (como sempre) e ele bateu na porta e eu fui abrir. Quando vi que era ele, atravez do vidro da porta. Só abri a janelinha de cima. Dizendo que a gente já tava dormindo. Ele pediu pra entrar, queria conversar comigo, que ia ser rápido. Então, deixei mas não quis ficar com ele sozinha lá e fui pra o quarto de novo, minha amiga estava sentada na cama dela, lendo um livro e ele sentou na minha cama. Eu sentei longe dele, e sem mas nem menos ele deita nas minhas pernas. Começou a contar da relação dele com o pai, que o pai o batia, mas ele sempre o perdoava... mas que ele tinha uma verdadeira adoração pelo 'velho' dele. Comecei a achar que eu tava fazendo um bicho-de-sete-cabeças dele. Que ele era até sensível. Até ele começar a fazer brincadeira de mal gosto...e me acariciar embaixo da perna, perto das nadegas. Enfiava a mão embaixo do lençol, eu tirava e o empurrava dizendo que já tava na hora dele ir embora. Ele não levantava de jeito nenhum. No momento consegui derruba-lo da cama, isso tudo num clima de "brincadeira", eu começando a entrar em pânico. Entào, pra mostrar que eu não tava mais interessada nas conversas dele, deitei e me cobri dos pés a cabeça, ele disse tchau e fez de conta que ia embora..minha amiga levantou e começou a mandar ele embora. Ele segura minha amiga e corre de volta pra o quarto, trancando a porta de chave...isso ele ria, como se fosse uma criança. Eu mandando ele sair...minha amiga batendo na porta pra abrir...e ele pula em cima de mim tentando me beijar...dizendo que nunca tinha esquecido aquelas noites na cama dele. Que eu já não era mais uma criança. Nessas horas, eu tentei não ser infantil, não chorar, não gritar, só olhei pra ele e disse que não tinha gostado do que tinha ocorrido 3 anos atrás. Que era melhor ele ir embora, ele se negava. Nesse momento minha mãe bate a na porta da casa da minha amiga, junto com a minha tia. Ele era o preferido dela, mas ela sempre andava desconfiada dele quando ele ficava perto da gente. Antes de ir...ele me pediu muito candidamente que na noite seguinte eu dormisse em casa, que ele queria muito conversar comigo. Que tinha notado que eu era a pessoa que ele precisava pra conversar, comigo ele conseguia colocar pra fora as coisas que ele precisa falar. Decidida a colocar os pingos nos "i's" eu resolvi ficar e esse foi o maior erro da minha vida.
Minha mãe não nos deixava a sós um segundo pra que eu pudesse falar o que queria. Então, eu fui dormir, quando tem familia se hospedando em casa é aquela coisa, gente pra todo lado. Minha tia dormia no chão, minha irmã na minha cama em cima..e minha priminha embaixo. Eu resolvi dormir embaixo... de madrugada ele passa pra o banheiro e como a porta do meu quarto estava semi-aberta..eu o vi passar. Eu fiquei quieta, não tinha dado pra conversar...melhor. Voltei a dormir. Quando de repente sinto mais claridade e olho pra cima e ele tá lá..só de cuecas. Eu quis morrer, minha tia, a mãe dele estava lá...dormindo ao lado da cama num colchão...minha priminha, a irmã dormia na mesma cama que eu! Como ele ousava aparecer assim lá? E se meu pai acordasse? Eu comecei a fazer gestos pra ele ir embora..ele só fez pular na cama e se enfiar embaixo das cobertas. Começou a me agarrar...e eu dizia baixinho pra ele ir embora. Esticou o braço até a porta e fechou...nos deixando na mais completa escuridão...ele me beijava e enfiava a mão dele nas calças do meu pijama...eu tremia e empurrava ele. Então senti ele puxar a cueca dele pra baixo e segura minha mão em cima do pênis dele... Ele me mandou virar de costas, eu não virei...ele começou a susurrar no meu ouvido que só de pensar no meu corpo ficava com tesão. Que se eu virasse, e ele pudesse encostar em mim...so pra sentir a minha pele contra ele..ele ia embora. Eu so queria que tudo acabasse...eu estava gelada..tremia tanto que não tinha força nos músculos. Eu me virei...e ele prendeu meu braço livre embaixo de mim, e com a outra mão..baixou o meu pijama e a minha calcinha...e ficava tentando me penetrar...eu me senti tão pequena. Enfiei a cara no travesseiro e só pensava pq eu não dava um cutucão na minha prima? Pq eu tinha que ser tão covarde? Eu não consigo lembrar se ele me penetrou..sei que se fez, não doeu.
PORRA, PORQUE EU TIVE TANTO MEDO DE ACORDAR ALGUÉM?
Lembro dele saindo da cama e voltando ao banheiro, eu não consegui dormir. No outro dia minha amiga me perguntou, e eu falei pra ela que tinhamos feito sexo...COM O MEU CONSENTIMENTO. Que eu tinha descoberto que até gostava dele. Eu tava me sentindo suja, pq tinha deixado ele me tocar, e fazer o que queria. Depois dessa noite...comecei a ter mesmo relações com ele...já não me importava. Coloquei na minha cabeça que ele gostava de mim. E que estavamos namorando. Quase todas as noites ele me procurava.
Um dia a tarde..ele tava deitado no quarto do meu irmão, me chamou pra perguntar se minha menstruação tinha vindo. Só ai, me dei conta que nunca tinhámos usado camisinha, Pô, como é que eu...uma garota que todo mundo achava inteligente. Esqueceu desse: DETALHE? E se eu ficasse grávida? Nunca pensei de alguma doença sexualmente transmissivel. Uma semana depois, fiquei muito doente. Nauseada, vomitando e com febre. Ele ficou histérico, me chamou e me perguntou se eu não podia tomar pilulas, eu falei que se eu tivesse grávida eu não queria a criança, mesmo assim que ia adiantar pilulas depois? Ele ficou com raiva, falou que eu devia ter me prevenido. Eu quase chorando disse que era virgem, que se ele não tivesse forçado a situação nunca teria acontecido nada entre nós. Ele me olhou com um ar de quem pisa em vc, disse que eu deixasse que pousar de santa. Que sabia que eu já não era mais virgem, por isso tinha forçado a situação. Pq eu estava dando uma de dificil pra ele.
Naquele momento, não achei chão embaixo dos meus pés, me senti muito humilhada. Eu que tava tentando bancar a espertinha fazendo de conta que tudo tinha acontecido pq eu queria. Eu não queria passar por vitima, vítimas na minha cabeça eram aquelas meninas burras que entravam no papo dos carinhas. A burra fui eu, cai na armadilha dele. Fui fácil sim, como caça! Dei-me conta, que tudo que eu sabia dos livros, das revistas Caprichos era tudo balela. A realidade era bem outra, mas até hj, me recuso a acreditar que homem é tudo farinha do mesmo saco. Naquele momento, naquele exato momento, que eu estava vestida com um vestido marron de cintura baixa modelo anos trinta, que me fazia parecer uma criança. Tava ali me sentido diminuida, rebaixada, humilhada e ainda tive que ouvir o escárnio dele me dizendo que eu era fácil.
Depois disso fiquei muito doente, evitava-o de qualquer maneira. Um dia, minha irmã estava no quarto lendo gibi's e ele entrou. Eu estava deitada na cama dela, tbm lendo. Ele sentou perto de mim e colocou a mão na minha perna, eu pulei da cama sem dizer nada. Meu quarto tinha uma janela que dava pra uma área atrás de casa, passando por ali..eu ouvi ele falar baixo com minha irmã. Eu fiquei curiosa e fiquei abaixada embaixo da janela. Quando eu ouvi ele pedindo pra beijar minha irmã, disse que eu tiha deixado. Mas, ele tava curioso pra saber se ela sabia beijar como eu. Ela ficou zangada e gritou pela minha mãe..ele correu pra fora do quarto. Eu sentei no chão e comecei a chorar. Chorar por percebi que eu tinha sido estupida, chorar com medo dele, chorar pq tive medo pela minha irmã. Que então tinha apenas 13 anos. Eu voltei ao quarto, disse pra minha irmã que tinha ouvido e ela começou a falar que não era a primeira vez. Falei pra ela que ela não devia ter medo dele...que desse o que desse. ela mordesse, batesse, desse um chute nas bolas dele. Mas, não deixasse ele chegar perto de novo dela. Sai do quarto e fui atrás dele, falei no ouvido dele que ele deixasse-a em paz. Ele deu um sorriso e falou que eu tava com ciumes.
Após cinco dias de cama, com febre, vomitando e tendo sido diagnósticado uma infecção intestinal terrível, fui melhorando aos poucos. Na mesma semana ele foi embora. Eu andava como um zumbi. Antes de ir, ele segurou no meu queixo e falou que eu não ficasse triste, que ele voltaria pra casar comigo. Eu só olhei pra ele e disse que não tinha planos de casamento com ele, que eu não casaria nem que tivesse engravidado. Ele sorriu e mandou um beijinho.
Uns dias após a partida deles, eu estava sentada pq sentia dores tbm na bexiga. E tinha dificuldades até pra urinar. Meu irmão, se juntou a mim na cozinha, enquanto comia ele me falou que das vezes que tinha saído com meu primo, muitas ele foi pra bórdeis. Enquanto isso, meu irmão ficava no carro esperando. Eu fiquei muito revoltada com meu irmão, eu que não contava com ele pra nada, nunca esperei dele isso, que pelo menos em minha defesa ele viesse. Ele não me defendeu mesmo sabendo. O formato da forma pra estúpido, que utilizaram em mim foi utilizada pra moldá-lo tbm!
A minha dor na uretra e bexiga aumentou até que comecei a urinar sangue. Fiz vários tratamentos pra combater a infeccão que me deixava vários dias de cama durantes as crises mais fortes, isso durante 6 anos de frequentes recaídas e crises. Mas, somente aos 21 anos, vim descobrir que tinha sido contaminada por Clamydia, e eu nem sabia o que era. Ele me passou uma DST. Eu me livrei dela, mas ficou durante anos a pergunta se eu teria ficado com sequelas ou não. A minha mais témida? Ficar estério!
Um ano depois minha mãe foi a São Paulo, pra o casamento de uma das irmãs dele. Ele tentou pegar nos seios da minha irmã um dia...e ela começou a chorar. Ele ficou apavorado e foi embora. Ela me contou pelo telefone..me ligou só pra isso. Eu liguei de volta pra falar com ele e o ameacei. Ele foi mais rápido, numa conversa com minha mãe. Ele solta que ela deveria tomar cuidado comigo, que eu era muito fácil. Quando ela chegou em casa, em quem ela soltou os cachorros? Bem, ela me colocou de novo na parede...mas eu entrei em pânico e não disse nada.
Eu devia ter dito...naquela época.
Como nunca é tarde...
Meses antes de me casar...ela encontrou pilulas anticoncepcionais na minha bolsa. Me olhou e jogou de volta. Na manhã seguinte, eu respirei fundo e perguntei pra ela se ela sabia o que aquelas pilulas significavam. Ela deu um sorrisinho e disse, que eram as que a médica tinha passado pra regular minha menstruação. Olhei nos olhos dela e falei que não, que eram pra evitar filhos. Que eu e meu marido já tinhamos relações, mas a pergunta crucial foi, se ela sabia quando tinha acontecido pela primeira vez. Ela disse que tinha uma idéia. Mas, minha mãe é daquelas pessoas que ficam jogando, eu tava farta disso. Queria falar, então falei...mas só tive coragem de falar da história do meu primo em São Paulo. Nunca tive coragem de contar do outro, quando eu tinha 4 anos ou 5 anos. Ela ficou chocada e muito revoltada com ele, mas eu não perdoei. Disse que eu ñão confiava nela, isso doeu muito pra ser dito, mas era a verdade. Ela nunca me perguntava se não tivesse uma ameaça atrás. E eu tinha medo de contar...ela chorou muito. Me deu razão. E ela mudou com relação a minha irmã. Com a minha irmã, isso não iria acontecer!
Mas, e eu? Já tinha acontecido comigo. E eu não tive nem a oportunidade de procurar o apoio dela. Hj, escrevendo isso tudo, chorando entre as lembranças mais desagradáveis. Me dou conta que eu sabia que certamente seria eu, a pessoa apontada como responsável.
Ele
Ele casou, tem uma filha. Foi preso, comeu o pão que o diabo amassou na prisão. Foi dedurado por uma vizinha, porque ele usava a oficina do pai dele pra receber peças de carros roubados. Ele jurou de pé junto que nunca fez, meu primo, irmão dele. Tbm disse isso. Eu respondi que não acreditava que ele era inocente. Por dentro, vibrei por ele estar sofrendo. Ele saiu da prisão por falta de provas, mas tá recebedendo processo. Ele destruiu a vida do meus tios. Meu tio perdeu toda a clientela da oficina. Foi a falência.
Ano passado, ele sofreu um acidente, está pelo que minha mãe falou quase CEGO. Por mais que eu me sinta culpada pela minha maldade. Não tô com pena dele. Ele até ameaçou suicídar-se se realmente ficasse cego. Eu não acredito que ele tenha coragem, ele é covarde demais. Eu não consigo perdoa-lo.